quinta-feira, 5 de março de 2009

Musse de butiá da Ana Silva


Butiá me lembra de cachaça. A associação é imediata, a fruta dispara minha memória olfativa. O cheiro forte, o vidro grande no balcão do boteco, aquelas bolinhas amarelas boiando em um líquido claro. Meu pai era assíduo frequentador de botecos, dois ou três, de amigos, próximos de casa.

Na época, não havia o charme atual, quando botecos tomaram "banho de loja" e viraram moda. O pessoal bebia mesmo daqueles vidros coloridos por frutas e ervas misteriosas que davam sabores e aromas à caninha. Minha irmã e eu íamos junto. Era um lugar familiar. Conversas alegres entre amigos. Nós ali nos empanturrando de merenguinhos coloridos e outros doces que se perderam no tempo. Era o único lugar em que o pai permitia que comêssemos "porcaria" e enchêssemos a cara. Voltávamos para casa bêbadas de refrigerante.

Minha mãe também tinha seus segredos. Na época em que os butiás pesavam nos galhos da vizinhança, ela fazia a infusão na cachaça. Minha irmã e eu, às escondidas, abríamos os vidros. Quase desmaiávamos com o cheiro e uma simples gota daquele líquido parecia que ia fazer nossas gargantas queimar no inferno como castigo pela pequena contravenção. Eu me perguntava por que os adultos gostavam daquilo, se a fruta sozinha era tão mais saborosa.

Meu pai trazia da casa de amigos sacos e sacos de butiá. A mãe separava um tanto para seus vidros de resultados inebriantes. A maior parte comíamos, roendo o caroço para aproveitar toda a polpa, sem deixar um fiapinho. Os carocinhos escuros deixávamos secando ao sol e depois usávamos para brincar, como se fossem contas, moedas, joias, bolitas, o que nossa imaginação demandasse.

Acho muito estranho e quase uma afronta que hoje tenha que comprar certas coisas. Laranja, bergamota, pera, araçá, goiaba, pitanga... butiá. Na fartura da vizinhança de minha infância, bastava destreza para subir no pé ou a boa vontade dos adultos para apanhá-las com varas, dependendo da altura da árvore. Sinto-me lesada quando vejo essas frutas no supermercado à venda, algumas a preços exorbitantes, tidas como exóticas.

Tudo isso me veio à mente quando, há algumas semanas, uma colega de trabalho, a Cida, levou-nos um saco de butiás. Aproveitei para comê-los gelados, saboreando aquele gosto da infância. Também foi a oportunidade para fazer uma receita inventada pela Ana Paula, fã confessa: musse de butiá. A aparência, a consistência, o gosto, a receita é toda ela perfeita. O único porém é a retirada da polpa; raspar o carocinho com uma faca exige paciência, mas vale a pena.

Ingredientes:
30 butiás maduros
1 lata de leite condensado
1 lata ou duas caixinhas de creme de leite
1 limão taiti

Modo de fazer:
1. Com uma faca, pegue os butiás e separe a polpa do caroço (se alguém tiver um método mais eficiente, por favor, avisa!).
2. Liquidifique o butiá. Se ficar muito difícil, junte uma ou duas colheres de água.
3. Passe a polpa por uma peneira, pressionando bem para extrair o máximo de líquido. Reserve.
4. No copo do liquidificador, bata o leite condensado e o creme de leite. Sempre batendo, adicione o limão, que vai dar consistência à musse, e o suco de butiá. Bata até a mistura ficar totalmente homogênea.
5. Coloque em um prato de sobremesa e leve à geladeira. Sirva gelado.

Dica: Você pode levar à geladeira diretamente em tacinhas, em porções individuais.

18 comentários:

Verena disse...

Hummmmmmm, deve ficar bem interessante e agora com esse calorão é uma ótima pedida!!! Também me lembra as cachaças coloridas e perfumadas, meu pai também é apreciador!
Uma ótima idéia!
Um abraço,
Verena

Mundo de Alice disse...

me lembro também da cahaça!!!
nunca mais vi butiá
adorei a receita

ameixa seca disse...

Eu nem sei o que é butiá, mas adorei a bebedeira de refrigerante e o resto da linda infância :)

Nereime disse...

Olá vim retribuir sua visita!
Suas receitas estão muito bonitas, gostei!!!
abraço

Emília disse...

Menina não faço idéia do que seja, mas adorei suas lembranças! Lembrei da minha época também, era fartura de manga, abacate, pitanga, acerola...como era bom!!
Beijinhos

Carmencita disse...

Nossa pela descrição me deu uma vontade incrível de provar essa fruta, a mousse então nem se fala.
Vou ver se encontro no Mercadão municipal.Bjss

Manuela © disse...

Fui pesquisar sobre o butiá porque nunca tinha ouvido falar. Aqui não existe. Mas mesmo sem saber o sabor eu aposto que ia adorar essa mousse.

Rosamaria disse...

Rosane, adorei a bebedeira de refri!
Na minha infância também deixava secar os caroços e depois quebrava pra comer a amêndoa que tem dentro. Minhas amigas, visinhas, e eu juntávamos e fazíamos a festa, colocando em cima de uma pedra e batendo com outra até quebrar.

Um amigo do meu marido sempre trazia, e depois que ele faleceu seu filho traz, uns butiás enormes e doces, maravilhosos e eu sempre fiz cachaça e licor de butiá. Eu fazia diversos sabores de licor, mas o de butiá sempre foi o melhor e o único que ainda faço.
Detalhe: sem caroço.

Na próxima oportunidade vou experimentar tua receita de musse.

Eu demoro pra vir aqui, mas quando venho deixo uma carta, hehehe.

Bjim.

Rosane Vargas disse...

Verena, fica ótimo e tem um sabor de infância, de pai, amizades.

Alice, no Mercado Público tem butiá para vender.

Ameixa, obrigada, querida!

Nereime, obrigada, aparece sempre.

Emília, engraçada como uma ideia desencadeia outras tantas lembranças, não é?

Carmencita, é uma frutinha pequena, ácida, bem gostosa.

Manuela, vale a pena conhecer.

Rosamaria, bom te ver aqui! Sabe que nunca provei a amêndoa? Fica para a próxima. Como tu fazes o licor?? Espero que continues me escrevendo longas cartas.

Grande beijo, gurias

pdd disse...

Li essa receita e me ocorreu se poderia ser usada com jabuticaba. Deve dar, né? Vou sugerir pra minha mãe na "próxima safra" lá de casa. Ela sempre faz geleia de jabuticaba, porque dá muita fruta e estraga rápido.

Rosane Vargas disse...

Pati, acabaste de uma ideia que pode dar bem certo. Sugere para tua mãe e me traz uma prova, OK?
Beijo

Eveline disse...

Nossa guria, eu amo butiá, na pascoa tomei uns goles de cachaça com butiá que meu pai fez, trouxe a iguaria dos parentes do interior. É muito bom, mas essa idéia da mouse, nossa adorei. Muito legal. Beijos

Caio Cezar Mayer disse...

Adorei o artigo, colhi alguns butiás na rua hoje e vou testar sua receita com certeza! bjo

Uellinton disse...

Tenho um pé de butiá em casa..eita frutinha deliciosa!!!Fiquei com uma dúvida:o limão deve ser posto inteiro(casca,semente)ou somente o suco???Ah fika uma dica para não precisar raspar o butiá existe uns liquidificadores que tem "coador" em seu interior dai é só bater!!!Se puder me mandar resposta por email ficarei grato!! uellinton.ott@gmail.com

Obrigado

Jaque disse...

Olá. Quando li sua história parecia que estava lendo a minha, inclusive quando roíamos o butiá até o caroço. Mas uma coisa que descobri ainda pequena é que além de brtincar, o caroço do butiá, depois de seco, pode ser quebrado (com delicadeza) e dentro dele tem um recheio branco muito parecido com coco. Inclusive, chamávamos de "coquinho", e deixávamos secar para sentar debaixo de uma árvore e, com a ajuda de uma pedra quebrar e comer o recheio. Adorei o blog!

K. disse...

Eu estava no Google pesquisando receitas com Butiá e cheguei nesse seu texto "saboroso". Farei o mousse.

Até hoje faço cachacinhas e quando butiás ainda deixo os caroços ao sol para secarem... Depois bato com um martelo, dentro de cada caroço há uma amendoazinha muito gostosa (e minúscula tb).

K. disse...

Ah faltou uma palavra no comentário:

*quando como butiás...

Alexandre disse...

Sempre gostei de butiá, mas nunca provei á não ser a própria fruta. O mousse ficou realmente muito bom. Eu não usei limão e não peneirei a polpa. Mas ficou bom com a fibra bem desfiada apos passar pelo liquidificador. Excelente gostinho agridoce com aquele sabor do coquinho que fica no final. Bom mesmo!!!!